Saturday, September 25, 2004

Os filhos de Kurt - página 16

Ainda nessa noite, na vivenda, os dois irmãos decidem investigar o caso. “Temos várias testemunhas para determinar um padrão. Há, pelo menos, quatro miúdos vestidos de preto, que andam sozinhos por Oeiras. Este facto levanta várias questões: Serão os miúdos mesmo crianças abandonadas? Não serão putos que se divertem a sair sozinhos à rua, com roupas escuras, por alguma razão especial? Se são crianças foragidas, onde e como vivem elas? Como fazem para sobreviver?”, problematiza João, enquanto Ricardo regista num caderno os relatos e observações dadas pelas pessoas que viram os peculiares rapazinhos.

“A primeira coisa a fazer é afixarmos, nos prédios em volta da praceta, uns panfletos a perguntar se alguém viu esse género miúdos nas proximidades. Deixamos o nosso contacto nos panfletos, naturalmente. Depois, temos de gastar algum dinheiro para pôr anúncios em jornais regionais e nacionais, de conteúdo semelhante ao dos panfletos. Mas temos de conceber, com muito cuidado, o que vamos escrever nos panfletos e nos anúncios. Temos de redigi-los da forma mais séria e profissional possível. Senão, ninguém vai ligar ao que dizemos!”, considera Ricardo, edificando um plano de acção com o qual João concorda. “Ainda bem que ficaste entusiasmado com esta cena. Estávamos a ficar bué depressivos! O que é que achas de termos atendido o gajo, o Celso, lá no escritório? Não se criou um ambiente fixe, porreiro, ao estilo do Sherlock Holmes?”, questiona o irmão mais novo, contente por ver Ricardo tão aplicado na investigação do mistério. Este só espera que os dois consigam resolver aquele caso e que tal resolução provoque algum impacto na opinião pública, para que a agência SIGILON seja reconhecida.

Wednesday, September 22, 2004

Os filhos de Kurt - página 15

Entretanto, aparece um homem que, certamente, andava pela zona, a passear o seu cão. O homem surpreende os três com uma inesperada pergunta ao assustado consumidor de haxe: “Então, já deixou as crianças em casa? Os miúdos estavam muito divertidos a brincar!”. Estupefacto, Celso, após alguma hesitação, questiona-o se ele estava a falar das crianças vestidas de preto, que vagueavam pela praceta. “Sim. Não estava a tomar conta delas? Que estranho! Passei ao lado da praceta, enquanto passeava o meu cão, e ia jurar que você andava a controlar as brincadeiras dos quatro miúdos. “, afirma o homem, que, indirectamente, demonstra aos irmãos Azumbsen, a veracidade das palavras de Celso. Este inquire o homem sobre o número de crianças que estavam na praceta.

“Quatro miúdos? Sim. Lembro-me bem. Dois ao pé do baloiço, outro num banco em frente ao seu, e um quarto rapazito detrás do sitio onde você se sentava. Lembro-me bem. Eu estava do outro lado da rua, mas vi bem. Mesmo à noite, eu vejo bem as coisas. Não é à toa que, em África, eu era um dos melhores snipers da companhia. Não é para me gabar, claro!”, diz o homem. A sua descrição faz desmaiar Celso. Enquanto tenta reanimá-lo, o homem transmite-lhes outra informação, que eles retêm com atenção. “Há bocadinho, um desses miúdos cruzou-se comigo. Não sei que raio ele tinha, mas cheirava muito mal. Cheirava a lixo. De relance, pareceu-me vê-lo com o cabelo basto, desgrenhado, como se já não fosse lavado há várias semanas. E também parecia ter as unhas bastante sujas. Se soubesse que esse miúdo, assim como os outros, andava sozinho na rua, tinha feito qualquer coisa!”, declara com seriedade.

Sunday, September 19, 2004

Os filhos de Kurt - página 14

Apesar do aspecto algo autêntico da confissão, João só acreditou mais ou menos no que Celso disse, porque verificou que repetiu o padrão das crianças vestidas de negro, em condições pouco normais. Ricardo também se baseia nessa razão para achar aquele testemunho como digno de alguma credibilidade. Pensa, para si mesmo, que é capaz de valer a pena investigar aquele caso, embora sinta que tal investigação possa ser a derradeira, pois a sua fé na agência SIGILON está quase completamente esvaída. Os dois aceitam seguir Celso para que ele lhes mostre o palco das suas misteriosas visões.

O mais novo dos Azumbsen leva consigo uma lupa e uma lanterna para eventuais averiguações no local. A juntar às qualidades extra-psiquicas, os dois irmãos possuem vários conhecimentos ao nível da criminologia, conhecimentos que desenvolveram como hobbies onde depositaram vincado interesse. Qualquer deles conhece de cor todas as aventuras do Sherlock Holmes e todas as histórias de Agatha Christie. Ou seja, para além de relevantes conhecimentos como criminologistas, possuem também uma forte bagagem no que respeita ao romance policial. Imbuídos desse espirito do detective metódico e observador, chegam, com Celso, à praceta onde tudo se passou. Os irmãos Azumbsen esgravatam a pente fino o local, mas nada encontram, sempre seguidos por um medroso Celso que olha para todos os recantos, temendo ver neles espectros ou almas fantasmagóricas.

Wednesday, September 15, 2004

Os filhos de Kurt - página 13


“ Às dez e tal da noite, eu estava no banco de jardim duma praceta aqui próxima. Encontrava-me sozinho naquele sitio, não havia ninguém à volta, o banco em que me sentava ficava num cantinho da praceta, não havia crise. Podia fumar um charrito, à vontade. Foi o que aconteceu. Quando estava a acabar de fumá-lo, vejo que, ao longe, no baloiço da praceta, uns vinte metros à minha frente, alguém se tinha sentado. Concentrei o olhar e vi que era um puto todo vestido de preto que baloiçava e baloiçava. No princípio, não liguei nenhuma, mas depois comecei a pensar. Um miúdo tão pequeno, àquelas horas, sozinho, era uma cena muito estranha. Olhei para as janelas dos vários prédios à volta, para ver se algum familiar do puto o estaria a controlar. Não vi ninguém. Acabei o charro, levantei-me e pensei em ir falar com o miúdo, só para satisfazer a minha curiosidade. Dei os primeiros passos e reparei noutro puto, também vestido de preto, sentado num outro banco de jardim, não muito longe de mim. Comecei a sentir que a cena estava a ficar marada. Eu não vi nenhum dos miúdos a vir de lado algum para se sentar no baloiço ou no banco. E comecei a ficar acagaçado. Nesse momento, notei que um outro puto, vestido como os restantes, estava em frente ao baloiço, e parecia contemplar o miúdo do baloiço a brincar. A cena ficou totalmente chinada! Deu-me um vipe, julguei que os três putos eram fantasmas, tive um ataque de pânico, e fugi deles e da praceta. Corri como o caraças e vim aqui ter para vos contar o que me aconteceu. Como vocês dizem que são detectives paranormais ou coisa parecida, vim cá para vos contar isto!”, conclui Celso, gaguejando um pouco. João dá-lhe mais um copo de água, que ele bebe, desenfreadamente, sorvendo-o a tremer.

Monday, September 13, 2004

Os filhos de Kurt - página 12


Enquanto martela, com extrema desmotivação, as teclas do piano, ouve alguém a tocar à campainha e a bater à porta com alguma pressa. João comenta o sucedido: “ São onze da noite. Quem é que vem para aqui tocar à campainha a estas horas? Vou lá ver!”. “Vai...vai...E vai pensando em abandonar esta cena da agência...” diz Ricardo para si mesmo, enquanto pensa, com seriedade, em desistir daquele projecto.

João abre a porta e vê um conhecido seu, dos tempos do Liceu, com os olhos esbugalhados de pavor. O rapaz chama-se Celso, usa uma farta cabeleira e entra no hall, cheio de tremuras. João reconhece o cheiro a haxe a emanar dele e pergunta-lhe se o rapaz esteve na passa. Celso responde-lhe que sim e que apanhou, há poucos instantes, o maior susto da sua vida. João tenta acalmá-lo. Dá-lhe um copo de água e diz-lhe para se sentar no sofá do escritório do primeiro andar, divisão projectada pelos irmãos para receberem os clientes da agência, mas que, para grande frustração deles, ainda não tinha sido usada. João chama o irmão, enquanto repara, com um certo ar jocoso, na pose desarranjada, amedrontada, alucinada, do seu conhecido do Secundário. Ricardo vai ter com os dois, mantendo o mesmo semblante desmoralizado de quem está prestes a desistir dum sonho que vê quase impossível de realizar. Apesar de ter achado interessante a ideia da Agência de Detectives, guardou sempre reservas quanto ao sucesso desta, ao contrário do irmão, muito mais sonhador do que ele. Por dentro, sente que aquela empresa, na qual pôs alguma crença, irá soçobrar, confirmando as suas receosas expectativas. Chegado ao escritório, prepara-se para ouvir, com João, o relato de Celso.

Sunday, September 12, 2004

Os filhos de Kurt - página 11


O irmão mais novo chama-lhe a atenção de que não será fácil investir em qualquer outro negócio: “O que podem fazer juntos um Sociólogo e um Historiador? Investigação? Isso é fixe, mas não dá dinheiro! Temos que aproveitar os nossos dons!”. “Os nossos dons? Fazer umas telepatiazitas? Mover objectos? Ter visões? Já tentámos, através do poder mental, localizar fenómenos estranhos para os tentarmos resolver e para ganharmos protagonismo, e, no fundo, o que é que aconteceu? Não descobrimos nada! Nada! Andamos com os poderes mentais bloqueados! Eu tenho a impressão que esgotámos as nossas capacidades com a cena do totoloto! Acho que isto tudo é uma MERDA!”, vocifera Ricardo, meio alterado, com a frustração acumulada a saltar-lhe dos poros da pele.

João, fleumático, procura acalmá-lo: “Não te excites tanto. Continuas a ter poderes extrasensoriais. Não reparas como os móveis aqui da sala estão a abanar? Quando te irritas, a energia que está dentro de ti mete-se na matéria das coisas. Isso é um dom. Tens que aproveitar esse dom. Desesperar não serve para nada!” Ricardo não fica muito mais tranquilo com o que o irmão disse. E rebate-o: “Achas que estes poderes servem para alguma coisa? Servem para impressionar um bocadinho. E depois? Eu sei que isso para ti é uma sensação do caraças! Tu sempre tiveste a mania de irrigar sangue para as pupilas, para ficares com os olhos vermelhos, de modo a assustares as miúdas! Mas, que eu saiba, encher os olhos de sangue não paga as contas da luz nem da água, não alivia as despesas, não constitui um ordenado!”. João, permanecendo sereno, considera que a sua maior dúvida existencial do momento é de mudar o nome da Agência Sigilon para Agência Siggilon. Ricardo pensa que não vale a pena discutir com ele seja o que for, e senta-se em frente ao piano, desencantado com a atitude desprendida do irmão.

Saturday, September 11, 2004

Os filhos de Kurt - página 10

Os dias passam. Ricardo Azumbsen sente-se um bocado frustrado. A ausência de casos e de clientes faz-lhe recordar o estado de ânsia e desencanto em que vivia, quando não tinha um emprego para se aplicar, uma profissão onde investir. Observa, novamente, o tempo a passar, a escoar-se sem qualquer perspectiva real de vida ou de carreira para o futuro. João Azumbsen, apesar de não gostar do fracasso inicial que a agência de detectives está a ser, entretém-se a estudar para as cadeiras que lhe faltam fazer, no penúltimo ano da faculdade. Ricardo acha que o seu irmão anda muito despreocupado com o facto do projecto em que investiram se mostrar improfícuo. Por vezes não se contém e recrimina João por este aparentar um certo desleixo em relação à situação em que vivem. Durante duas semanas, nada de especial acontece, os dois permanecem na vivenda, à espera de serem contactados para prestarem os seus serviços. Uma espera desesperante para Ricardo, enfadonha para João. Duas semanas onde as tensões entre ambos irrompem em discussões inconsequentes.

Ao fim desses quinze dias, enquanto vegetam na sala de estar do andar de cima da vivenda, Ricardo, enervado, explode:“ Não sei de quem foi a ideia de termos feito este estúpido investimento! Isto não está a dar nada! Isto é uma merda! Mais vale mudarmos de negócio!”. João, ao raciocínio esbaforido do irmão, contrapõe com uma sugestão: “Tens de ter calma! Já calculávamos que isto não ia ser fácil! Temos de procurar um mistério marado e sermos nós próprios a resolve-lo!”. “Pois! O problema é que neste País, em Portugal, nunca acontece nada, a não ser esporadicamente! Estou a pensar em desistir disto! A sério! Fazemos outra coisa qualquer!”, afirma Ricardo com uma veemência que incomoda João.