Sunday, September 12, 2004

Os filhos de Kurt - página 11


O irmão mais novo chama-lhe a atenção de que não será fácil investir em qualquer outro negócio: “O que podem fazer juntos um Sociólogo e um Historiador? Investigação? Isso é fixe, mas não dá dinheiro! Temos que aproveitar os nossos dons!”. “Os nossos dons? Fazer umas telepatiazitas? Mover objectos? Ter visões? Já tentámos, através do poder mental, localizar fenómenos estranhos para os tentarmos resolver e para ganharmos protagonismo, e, no fundo, o que é que aconteceu? Não descobrimos nada! Nada! Andamos com os poderes mentais bloqueados! Eu tenho a impressão que esgotámos as nossas capacidades com a cena do totoloto! Acho que isto tudo é uma MERDA!”, vocifera Ricardo, meio alterado, com a frustração acumulada a saltar-lhe dos poros da pele.

João, fleumático, procura acalmá-lo: “Não te excites tanto. Continuas a ter poderes extrasensoriais. Não reparas como os móveis aqui da sala estão a abanar? Quando te irritas, a energia que está dentro de ti mete-se na matéria das coisas. Isso é um dom. Tens que aproveitar esse dom. Desesperar não serve para nada!” Ricardo não fica muito mais tranquilo com o que o irmão disse. E rebate-o: “Achas que estes poderes servem para alguma coisa? Servem para impressionar um bocadinho. E depois? Eu sei que isso para ti é uma sensação do caraças! Tu sempre tiveste a mania de irrigar sangue para as pupilas, para ficares com os olhos vermelhos, de modo a assustares as miúdas! Mas, que eu saiba, encher os olhos de sangue não paga as contas da luz nem da água, não alivia as despesas, não constitui um ordenado!”. João, permanecendo sereno, considera que a sua maior dúvida existencial do momento é de mudar o nome da Agência Sigilon para Agência Siggilon. Ricardo pensa que não vale a pena discutir com ele seja o que for, e senta-se em frente ao piano, desencantado com a atitude desprendida do irmão.

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