Monday, September 13, 2004

Os filhos de Kurt - página 12


Enquanto martela, com extrema desmotivação, as teclas do piano, ouve alguém a tocar à campainha e a bater à porta com alguma pressa. João comenta o sucedido: “ São onze da noite. Quem é que vem para aqui tocar à campainha a estas horas? Vou lá ver!”. “Vai...vai...E vai pensando em abandonar esta cena da agência...” diz Ricardo para si mesmo, enquanto pensa, com seriedade, em desistir daquele projecto.

João abre a porta e vê um conhecido seu, dos tempos do Liceu, com os olhos esbugalhados de pavor. O rapaz chama-se Celso, usa uma farta cabeleira e entra no hall, cheio de tremuras. João reconhece o cheiro a haxe a emanar dele e pergunta-lhe se o rapaz esteve na passa. Celso responde-lhe que sim e que apanhou, há poucos instantes, o maior susto da sua vida. João tenta acalmá-lo. Dá-lhe um copo de água e diz-lhe para se sentar no sofá do escritório do primeiro andar, divisão projectada pelos irmãos para receberem os clientes da agência, mas que, para grande frustração deles, ainda não tinha sido usada. João chama o irmão, enquanto repara, com um certo ar jocoso, na pose desarranjada, amedrontada, alucinada, do seu conhecido do Secundário. Ricardo vai ter com os dois, mantendo o mesmo semblante desmoralizado de quem está prestes a desistir dum sonho que vê quase impossível de realizar. Apesar de ter achado interessante a ideia da Agência de Detectives, guardou sempre reservas quanto ao sucesso desta, ao contrário do irmão, muito mais sonhador do que ele. Por dentro, sente que aquela empresa, na qual pôs alguma crença, irá soçobrar, confirmando as suas receosas expectativas. Chegado ao escritório, prepara-se para ouvir, com João, o relato de Celso.

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